Coisinhas da treta




A escassos dias de fazer quarenta primaveras, voltam as tormentas de sempre. Voltam os medos das diferentes solidões. Voltam os receios do amanhã. Voltam todas as dúvidas do passado, que se projectam no presente e futuro, ainda com mais força. Não estou sozinho, mas estou registado como solteiro no registo civil. Não tenho filhos, porque se há dias que gostaria de ser pai, noutros nem por isso, e já se sabe que neste ponto não pode haver dúvidas, nem funções em “part-time”. Não consigo ter uma família de sangue, a minha e não só, reunida à volta de uma mesa, porque os meus ainda vivem no século XIX, e porque na prática nunca tive isso. Portanto, planeando e desenhando cenários a dez, vinte anos, torna-se bastante penoso, porque se sofre por antecipação. Tipo, aos oitenta anos, estarei sozinho? Estarei a sofrer, sem ninguém para me dar a mão?  Abandonado e infeliz?

Ser um homem que se sente atraído por homens, aos quarenta, não é a mesma coisa que aos vinte, onde pensamos que temos a vida toda pela frente. Onde elaboramos planos espectaculares a longo prazo, porque ainda temos muito tempo para isso. Queremos diversão. Queremos poucas responsabilidades sentimentais, porque temos muito para descobrir. Isto é, se o desbravamento começar por essa altura. Se forem como eu, que só militei afincadamente a partir dos meus vinte e oito anos, é fácil perceber que doze anos é um período muito curto. É quase nada, perante a imensidão da vida. Na prática, fui adolescente quase trintão. E o que fiz até lá? Tentei enquadrar-me na sociedade, estudei, tentei passar despercebido, procurei ter amigos e refugiei-me no meu quarto, com medo de ser diferente, porque não sabia muito bem como reagir. Como agir. Como ser.

Sinto que perdi muito tempo. Demasiado. Não é que aos vinte, ou vinte e dois anos, não explorasse o mIRC ou a Teletexto RTP, em busca de pessoas que pensassem como eu, mas o medo de conhecer “ao vivo” paralisava a conversa quando se tentava avançar para esse estado. Formalizar um conhecimento virtual, era assumir aquilo que eu não queria. Aquilo que eu não sabia ainda muito bem o que era. E sendo “menino de aldeia”, o pensamento ainda estava muito pouco desenvolvido nesse campo. O receio daquilo que os vizinhos, a família alargada e os amigos de infância pudessem pensar, era mais forte que uma qualquer felicidade individual. É claro que hoje, tudo é mais fácil. A sociedade, mal ou bem, é mais aberta. Mais disponível. Mais acolhedora. Existem formas maiores de comunicação, que permitem até que os mais tímidos, consigam encontrar um caminho. Existem mais bares para encontros casuais, e existem mais grupos de amigos que assumem a parte chata das apresentações. Existe uma panóplia de circunstâncias, que acabam por tornar tudo mais “natural”. Mais diluído na homofobia existente, que se confronta ainda com a sociedade portuguesa de cariz machista.  

Não quero com isto, estar aqui com uma ladainha piedosa, para causar nos outros uma qualquer espécie de empatia. Não. Longe disso. Apenas realizo um exercício muito pessoal, acompanhado. Tento ainda perceber, se a velhice para os homens que se sentem atraídos por homens, não será mais cruel que as outras. Mais solitária. Mais exigente na criação de laços afectivos duradouros, sabendo, porém, que o homem vê tudo de uma forma mais física que a mulher.  Mais carnal. Mais descartável. Mais desprendida de sentimentos. E não, não acho que seja preconceito. Considero que é mesmo assim, embora reconheça excepções. Mas se me perguntarem se gostaria de voltar atrás no tempo, para tentar fazer as coisas de outra forma, ou se gostaria de voltar a ter vinte anos, respondo que não. Apenas respondo que queria ter apenas mais tempo para explorar a vida.  

4 comentários:

  1. Eu costumo dizer a brincar mas muito a sério. Queres ver como acaba um gay numa relação infeliz ou solteiro?! Vai à praia 19 e vê a triste figura daqueles velhos e será a nossa figura para os mais novos que estão a nascer agora

    ResponderEliminar
  2. Estou a poucos dias dos 46. Não estou sozinho. Não quero ter filhos. Penso que ninguém irá cuidar de mim quando for velho. Talvez o esposo porque e muito mis novo (se ainda estivermos juntos). Não tenho medo do futuro. Já me imaginei num lar, a contar as histórias da minha vida a quem as quiser ouvir. Só quero ter a minha mente intacta e saúde. Tenho uma sorte para já. Consigo sentar ambas as famílias à mesa. Isso dá uma certa paz e esperança no futuro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não gosto muito de pensar no futuro nesses termos. Porque tenho algum receio do que possa concluir ou imaginar e depois começar a fazer filmes parvos que não me deixam descansar de noite. E para zombie, já bastam as séries de TV.

      Eliminar

Este blogue não é uma democracia e eu sou um ditador’zinho… pelo que não garanto que o comentário seja publicado. Mas quem não arrisca…